"Procurando Nemo" e a Volta às Aulas

(Jornal Zero Hora, 2004)


Primeiro dia de aula e o peixinho já está com tudo pronto para conhecer seus novos amiguinhos. Alegre, porém ansioso, pois um mundo novo o espera. Seu pai, cheio de cuidados, leva Nemo até o professor e seus coleguinhas. Lá, encontram outros pais, com suas características e histórias próprias de vida, mas também cercados pela expectativa que lhes é oferecida pela imensidão do "oceano". É nesse mar de novidades que se desenrola a estorinha de Nemo e seu pai. Afinal, é o recomeço para uns e o primeiro dia para outros. Mas, para todos, a inesgotável sensação de ansiedade ou, mesmo, de uma pequena gotinha de insegurança.

 

Neste momento tão sensível da vivência infantil, cabe a nós, educadores, proporcionar a transição dessa situação para terra firme, de forma a transmitirmos aos nossos alunos e, também, aos familiares, a acolhida tão necessária. Algumas vezes é a criança que tem um difícil recomeço. Outras vezes, os pais. E, na maioria dos casos, ambos retornam muito ansiosos. Porém, cada um da sua maneira; uns despercebidos, outros choram incessantemente na porta da escola. Até porque todos sabemos que a ansiedade e a insegurança do reinício podem transformar um simples período de adaptação escolar numa experiência mais difícil para crianças e familiares. Deve-se, portanto, lançar mão de algo muito valioso e tipicamente humano, que é a criatividade. É através da percepção criativa que o indivíduo é capaz de sentir o prazer de viver todos os momentos em que o novo pode gerar dúvidas ou incertezas.

 

No caso da criança, esse dom criativo passa sempre pelo brincar, já que é esta a sua forma de comunicação com o exterior. É assim que consegue transformar a realidade à sua maneira simbólica de ver e interpretar o mundo que a rodeia. Neste momento de adaptação à rotina da volta às aulas é importante que estejamos atentos aos desejos e anseios de nossas crianças, proporcionando-lhes experiências através das quais possam expressar e elaborar seus conflitos. Para isso, nada mais criativo que o brinquedo, onde o professor coloca-se disponível à criança, de forma que, juntos, passem a viver esta magia, conquistando, aos poucos, a indispensável relação de afeto e confiança mútuos. Só não se pode esquecer que, para sensibilizarmos uma criança é necessário que nós mesmos, antes, estejamos  sensibilizados. Somente conseguiremos despertar o interesse da criança quando nos permitirmos, realmente, brincar com ela. Aliás, como diz o pediatra e psicanalista inglês Donald Winnicott, "É com base no brincar que se constrói a totalidade da existência experiencial do homem". E, desta forma, também, poderemos tirar proveito desta relação e encantamento proporcionados pela magia do mundo do faz-de-conta. São conquistas de emoção e comportamento que fortalecem o vínculo da criança com a escola e, conseqüentemente, acabam transmitindo ao pai o desaparecimento natural de eventuais inseguranças.

 

Nemo e seu pai precisaram viver um tempo longe um do outro. Cada um com suas experiências de vida, para, realmente, conhecerem seus próprios limites, seus desejos e suas ansiedades. Afinal, é sempre bom lembrarmos que, durante esse afastamento, vários outros peixinhos se integrarão à vivência rotineira de cada um, levando-lhes a contribuição tão necessária para o desenvolvimento do saber, do saber fazer e do saber ser, modificando, desta forma, seu mundo interno e externo.

 

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Psicopedagoga Maria Rita Fernandes Araújo

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