A Grande Deusa

 

 

(Jornal Zero Hora, 10/05/03 - p.15)
 

 Ainda me lembro de uma mãe que, certo dia, veio até mim contando uma situação ocorrida com seu filho, que chegara em casa triste e chorando por ter brigado na escola com um amiguinho. Ele esperava que ela interviesse na situação, mas, ao contrário, depois de dar explicações ao filho, fez com que ele resolvesse sozinho seu problema. A dúvida da mãe era se, naquele momento, havia tomado a decisão mais acertada. Uma situação que, apesar de tão simples, é dolorida, e, o que é pior, se sabe que não é a única nas vidas de uma mãe e de um filho.  Aliás, não são poucas as vezes que, levadas pelo impulso de proteção maternal, nós, mães, tendemos a não permitir que nossos filhos cresçam envolvidos em situações de conflito.

 

Deméter, a Deusa Mãe do Olimpo, sofreu com o rapto de sua filha por Hades, Deus do Inferno. Inconformada amaldiçoou a terra e tornou as lavouras improdutivas. Pediu ajuda a Hércules, que foi buscá-la nas profundezas, pensando ser esta a melhor solução para Perséfone, sua filha. Mas Perséfone precisava conhecer o sofrimento e os perigos existentes no outro mundo, para se tornar, também, uma Deusa. Através da simbologia do fruto de uma romã que lhe foi oferecida por Hades, escolheu passar parte do ano com sua mãe no Olimpo, e parte com Hades no mundo avernal. Conheceu, assim, os dois mundos e tirou de ambos o que lhe poderia servir para seu crescimento interior.

 

Esta história da Mitologia grega pode nos servir simbolicamente de referencial na hora em que nos deparamos com decisões sobre deixar ou não que nossos filhos aprendam com seus erros e dificuldades. E não é uma tarefa fácil. Até porque, muitas vezes, pode até ser mais cômodo, tanto para a mãe como para o filho, que o amparo materno se sobreponha à iniciativa da criança.

 

Não pretendemos, com isso, dizer que se deva deixar nossos filhos correrem riscos com a desculpa de estimular crescimentos através do desamparo e da ausência da proteção materna. Mas, simplesmente, que aproveitemos eventuais situações, que se apresentam no dia-a-dia de nossos pequeninos, para, sob orientação lúcida e coerente, possibilitarmos que aprendam a caminhar com seus próprios pezinhos, construindo, com isso, um aprendizado sólido e seguro, importante para o seu crescimento e desenvolvimento de sua personalidade. Às vezes, não passam de situações simples, como ajudar a vestir uma roupa ou a amarar um tênis. O que acontece é que, não poucas vezes, em função da pressa ou, mesmo, da falta de paciência do adulto, a ajuda passa a ser mais conveniente para aquela ocasião. O certo é que se acaba perdendo, com isso, uma oportunidade importantíssima de estímulo para o crescimento e aprendizado da criança.

 

Certamente uma criança que foi acostumada a realizar suas tarefas com iniciativa própria vai apresentar um ritmo de aprendizado maior do que aquela que sempre as fez com a participação direta do adulto.  Atentos ao surgimento das reais dificuldades, é importante a clareza de saber distinguir a diferença entre educar para a vida ou viver por eles. Aí sim, conhecendo suas limitações, saberemos o momento certo de caminharmos lado a lado ou unir as pegadas na areia, carregando, com carinho e sabedoria, nossos pequeninos nos braços.

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Bairro Tristeza

Porto Alegre, RS

Psicopedagoga Maria Rita Fernandes Araújo

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